terça-feira, 22 de janeiro de 2019

O Trabalho de Designer de Inteiores em Orlando

              Decorar uma casa não é tarefa fácil. Quando eu ainda vivia no Brasil tentei sozinho escolher umas cores, comprar mobília jogar aqui e alí e na maioria das vezes deu errado. O que eu não sabia na época é que o me faltava era conhecimento teórico. É claro que o olhar, bom gosto, tudo acrescenta, mas só isso não é suficiente para ter sucesso no design e decoração de uma casa. Não é à toa que se estuda cores na faculdade de arquitetura de interiores (ou designer de interiores) por 6 meses! Imagine o que se aprende na faculdade então em um bacharel de 4 anos como o que eu fiz.? Mas isso também não é garantia de sucesso infelizmente e eu digo o por quê. 

              Mesmo na faculdade, em uma turma de 40 alunos, talvez 10 pessoas tinham bons projetos para apresentar no final de cada semestre. A maioria dos alunos aspirava ser um designer acima da média, com um senso de estilo acima do normal ou fora do comum. A maioria queria ser diferente, único, exótico, etc. Mas na verdade a maioria era bem abaixo da média e os projetos eram horríveis. Uma das alunas eu me lembro bem, apresentou como projeto final para quartos de um hotel na Flórida Keys, uma decoração totalmente preta e vermelha. Essa nem a professora perdoou. 

                O que um designer pode fazer por uma família é algo extraordinário. O prazer de viver em uma casa segura, funcional e aconchegante traz uma melhora na qualidade de vida que poucos se dão conta. E pegar uma casa pelada e transformar em um lar é algo que exige estudo, conhecimento, planejamento, uma dose de bom gosto, empatia para entender o que o cliente quer e por último experiência. Eu sequer gosto dos primeiro projetos que eu fiz. 

                Este final de ano, trabalhamos muito em 3 grandes projetos. Trabalhamos muito mesmo, quer ter uma ideia de quanto? Do dia 17 de Novembro de 2018 ao dia 31 de Dezembro não tivemos sequer 1 dia de folga. Trabalhamos de domingo à domingo, na véspera e no dia do Natal inclusive. Tudo porque tínhamos um prazo apertadíssimo e 3 casas grandes para fazer do zero até a entrega das chaves, onde os proprietários viriam somente com as suas malas. Os 3 imóveis teriam que conter tudo para as famílias ficarem por mês de férias nos EUA. No dia 31 fomos convidados para uma festa de Ano Novo e não fomos porque estávamos exaustos.

              E este último imóvel que terminamos no dia 31 de Dezembro é o de número 50 na minha carreira de Designer de interiores até o momento. Sim, 50 residências desde 2014 quando abri a empresa. Nem eu acredito que fizemos tantas casas para tantos clientes!

              Há empresas em Orlando que oferecem o sistema "pacote fechado" ou "turn key solution" para casa de férias. Nesse sistema, o cliente escolhe os móveis e todos os artigos de decoração, paga um preço fechado e a loja monta a casa inteira. É uma boa solução em primeiro lugar porque sai mais barato do que, por exemplo, me contratar. Se o cliente tem várias casas (e isso é muito comum) e não está interessado em uma decoração única, voltada para a família, ou tem um orçamento pequeno, é uma boa opção. Do contrário, a maioria dos meus clientes me procuram pois não gostaram de nenhum dos pacotes apresentados por essas empresas. Não se importam de gastar mais para ter a tão sonhada casa de férias do jeito deles e também com um nível de sofisticação maior. Por se tratar de uma máquina de decoração muito bem engrenada, os pacotes saem muito rápido, a casa é montada em 1 só dia, mas acabam ficando bem parecidas. É comum ouvir de clientes "essa casa é de pacote".

             Do jeito que eu trabalho, o cliente me dá as diretrizes e a linha geral do estilo de decoração que procura. Escolhe ou não os móveis comigo nas lojas da cidade ou mesmo por catálogos e o toque final com acessórios ele não vê. É a surpresa da chegada. O dia da revelação! Eu vou colocar algumas fotos que mostram o estado da casa quando entramos pela primeira vez e logo em seguida as fotos profissionais que são tiradas alguns dias ou até mesmo no mesmo dia da chegada dos clientes para o "review". 


A casa foi pintada, cortinas na porta

A cliente não gostou da cor dos gabinetes então todos foram pintados
profissionalmente, inclusive nos 8 banheiros

Painel, cortinas lustre etc



                      

Na sala, fechamos a segunda porta que dava para a sala de entretenimento que viraria um cinema completo
e adicionamos nas paredes o chiplap como detalhe arquitetônico



Sala de entretenimento que iria se transformar em cinema

Estas janelas foram tampadas. As persianas são deixadas dentro da parede, fechadas
Por fora as janelas ficam iguais com persianas fechadas não mudando a
arquitetura da residência nem as normas da Associação

Veja que não há janelas na parede verde do cinema. Foi também construído uma plataforma
com luz nos degraus e adicionado o carpete para melhorar na acústica. A parede aveludada no funco
e as tiras de madeira também ajudam absorver os som

Aqui vemos que o cinema agora só tem a porta do lado esquerdo











             É muito gratificante esse trabalho. Eu fico muito ansioso no dia do Review, sempre muito preocupado se o cliente vai gostar do produto final. É um investimento alto para se deparar com algo que não gostou, não é verdade? Eles ficam mais ansiosos ainda! Graças a Deus nunca tive um cliente que não gostou da decoração, somente alguns, quiseram mudar uma coisa ou outra e sinceramente, faz parte. Eu trabalho com eles até ficarem 100% satisfeitos. E vamos seguindo trabalhando!

Studio R Interior Design Inc
Emails:
rs_alves@hotmail.com ou 
studiorinteriordesign@gmail.com

Tel/Whats para contato +1-407-808-1878


     

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

Audubon Park Orlando FL




            Uma década se passou desde que eu pus meus pés nessa cidade. Quem leu o blog desde o início sabe da trajetória. Pouca gente sabe porém, que eu moro na mesma casa desde o primeiro dia que cheguei em Orlando. E moro, consequentemente também no mesmo bairro - Audubon Park. Outro dia pensando no que eu poderia escrever para o blog (depois de 300 posts confesso que está difícil achar um assunto...) me veio a idéia de escrever sobre o bairro que eu moro desde 2009, Audubon Park.

            Muita coisa mudou em 10 anos em Audubon Park. Quando cheguei, 70% da Colonial Drive, que é adjacente a Audubon parecia uma rua de cidade de velho oeste abandonada. No auge da crise imobiliária, a avenida - e também o bairro - estava com 70% dos imóveis comerciais vazios com placas de "LEASE" (aluga-se). O tempo foi passando e a economia foi se recuperando. Hoje não há sequer um imóvel comercial vazio na área e os que saem são substituídos rapidamente por outro entrepreneur. O que antes eram terrenos vazios, entulho e placas de aluga-se, hoje tornou-se um bairro vibrante, ecletico, meio Hippie, ganhador de vários prêmios locais e nacionais. Orgulho dos moradores que adoram contar que no bairro existem duas dúzias de restaurantes únicos, que não fazem parte de redes e que servem comida artezanal, criação de chefes locais e internacionais aliados a investidores e empreendedores. O bairro também conta com shops e lojas vintage, cafés, bakeries (padarias), música, livros, móveis e muitas outras lojas que não se encontra, por exemplo, em Disney Springs. Aliás, pode-se dizer que a cultura em Audubon é o completo oposto da cultura Disney-turismo. Não foi feito nem idealizado para as massas, mas sim para àqueles que primam pelo artezanal, pelo raro e único.

História e localização

          Não é nada fácil encontrar material que fale sobre Audubon Park. Até mesmo no website da cidade há pouca referência sobre o assunto. Pelo que pesquisei o bairro foi originalmente projetado para dar suporte à base do exército situada onde hoje é Baldwin Park (um de meus bairros preferidos em Orlando). O bairro todo, que hoje é lar de aproximadamente 4 mil pessoas, foi idealizado e construído nos anos 50 e 60. A grande maioria das casas é no estilo  Mid Century Modern Ranch que na época, acreditava-se ser o melhor tipo de construção para suportar furacões comuns no estado muito pelo fato de serem casas térreas, espaçosas com telhados quase "flat" (sem muita inclinação). Todas as casas desta época foram construídas com blocos de concreto e as divisões internas são de estruturas de madeira com drywall. O piso da casa inteira era de Terrazo. 

Típica Mid Modern Century Ranch de Audubon Park

O terrazo é um composto de várias pedras (mármore, granito, etc) que é
aplicado como uma massa. Não tem rejunte e é muito bonito. No entanto, coloquei
piso por cima quando fiz minha reforma pois a manutenção do terrazo é
alta e faz muita sujeira
          No planejamento do bairro, aliado às construções das casas, carvalhos, magnólias e outras árvores foram plantadas por todas as ruas. Hoje Audubon Park, como o próprio nome diz, é um parque de árvores quase centenárias.   Há também as centenárias que já existiam no bairro antes da construção das casas. 

          Audubon Park encontra-se ao lado de Winter Park (que é uma cidade, não um bairro) e Baldwin Park. Fica a apenas 10 minutos do centro comercial de Orlando, o Downtown Orlando e também do Lake Eola, cartão postal da cidade. Atualmente um pouco menos que 5 mil pessoas vivem no bairro em aproximadamente 1450 residências.


A primeira seta apontando um ponto azul é aonde eu me escondo ;-)
Acima da linha vermelha grossa já é Winter Park e à direita o
famoso e também disputado (porém por motivos diferentes)
bairro Baldwin Park










Crise Imobiliária e Valorização

          No auge da crise de 2008, mais especificamente em 2011 quando os imóveis atingiram o mais baixo ponto de desvalorização, o preço médio de uma casa em Audubon Park de 3 quartos e 2 dormitórios era de USD 140,000.00. Era possível encontrar casas de 2 dormitórios que custavam na época menos de USD 100,000.00 e apartamentos de 2 dormitórios por 60,000.00. Hoje está tudo muito diferente. Entre 2013 e 2017 os imóveis valorizaram 100%. Imóveis que custavam 150 mil em 2013 foram vendidos em 2017 acimda de 300 mil dólares. Veja como exemplo a casa onde eu moro. 

            A casa que eu moro tem 3 quartos, 2 banheiros, com piscina e 145m². Em 2013 o valor de mercado dela era 156,900.00. Eu comprei a casa do Robert e da Louise em Julho de 2016 e paguei por ela o valor avaliado em USD 335,000.00. Dois anos depois, a valorização deu uma desacelerada, mas hoje a casa está avaliada em USD 410,000.00. Você pode ver a minha casa neste post aqui.

             Uma boa maneira de sabermos se um bairro é bom em uma cidade é examinando a quantidade de casas à venda. Se há uma quantidade excessiva de casas à venda isso é sinal de que algo está acontecendo pois, se o bairro for bom e as pessoas estiverem felizes nele, provavelmente não sairão tão cedo. Atualmente Audubon Park só tem 5 imóveis à venda!

Localização e limites de Audubon Park

Os 5 imóveis à venda no momento


Tamanho, endereço e valores dos 5 imóveis à venda no momento
















          Outro fator que contrubuiu para a grande valorização do bairro foi a construção de uma K-8 nota A no bairro. K-8 é uma escola pública que vai de Kindergarden (educação infantil) até 8th grade (que seria nosso Nono ano, antiga oitava série). A Audubon Park School foi construída quase atrás da minha casa em um local onde uma antiga e abandonada escola se encontrava. Em apenas 18 meses a prefeitura e o condado construíram uma escola enorme o que contribuiu para a valorização das propriedades e do bairro como um todo. 







          Para aqueles brasileiros que estão se mudando com suas famílias e gostariam de viver em um bairro tranquilo, tipicamente americano, próximo a Downtown e de tudo que essa proximidade pode oferecer e procuram uma escola pública nota A para seus filhos, Audubon Park é uma excelente opção. Não é comum ter em uma só escola da educação infantil até o 9 ano juntos. Geralmente são em escolas separadas. Isso é bom pois os filhos estudam na mesma escola até irem para o Ensino Médio, que no nosso caso é a Winter Park High School. 

O sistema da escola americano é fácil de entender.
Imagine que as séries no Brasil não tivessem mudade de nome.
O primeiro ano é o 1st grade, 5th grade a antiga Quinta série e o
8th grade a antiga Oitava série


Main Street e o Comércio

          Main Street significa rua principal. Toda cidade tem uma rua principal ou Main Street onde o comércio se concentra. Sabe aqueles filmes de velho oeste onde a Main Street tem o Saloon, barbearia, delegacia, hotel etc? Audubon Park tem a sua Main Street e o nome dela é "Corrine Drive". 

               Talvez você saiba o que é Main Street mas duvido que sabia que há um concurso anual da melhor Main Street da cidade, do estado e do país? Sim, e advinha só? Audubon Park ganhou em 2016 o "award" de melhor Main Street do país. Do país!!!



















               Na Corrine Drive há pelo menos 2 dúzias de lojas dos mais diversos produtos. Desde American Pies (tortas) à venda de plantas e árvores. Sorvetes caseiros, discos antigos, mobília vintage, roupa usada até uma feira de produtos agrícolas locais às segundas-feiras às 9 da noite! Junto a essa feira que já fui algumas vezes, há outras barracas de artesanato, bijuterias, cerveja artesanal, comes e bebes entre outros. De vez em quando há também música ao vivo.















Audubon Park Main Street Corrine Drive, Orlando FL 32803


          Alguns anos atrás outra jóia foi inaugurada em Audubon Park, o East End Market (3201 Corrine Drive, Orlando). O East End Market é um prédio onde funcionava uma antiga igreja e foi aberto, com ajuda da prefeitura, um espaço único e incrível. Há 12 lojas no total e uma horta que serve de jardim da fachada. Lá eles cultivam os próprios vegetais e hortaliças que os restaurantes e bares dentro do prédio usam. As lojas vão de pães exóticos, queijos do mundo inteiro, sandwiches, sucos até plantas, vasos e artesanato. Há no segundo andar um espaço para cozinha experimental onde há aulas de culinária e artezanato. Na hora do almoço e do jantar é difícil arrumar uma vaga para o carro, mas vale à pena a visita. 

                Eu posso dizer que me sinto muito privilegiado por ter vindo de cara parar em um dos melhores bairros de Orlando sem mesmo saber disso. Eu passei a apreciar mais e mais viver aqui depois que me tornei corretor de imóveis na cidade. Logicamente existem bairros com mansões e condomínios fechados. É outro conceito, outro estilo de vida. Eu gosto desse estilo americano de bairro sem muros, sem portarias, com as lojas de comércio locais onde o próprio dono trabalha e vende o que produz. Parece uma pequena cidade do interior dentro de uma mega cidade como Orlando. De manhã o barulho dos pássaros e o silêncio da tarde e da noite faz com que seja difícil de acreditar que estamos a menos de 10 minutos do caótico centro comercial de Orlando. E ainda bem que há pelo menos 30 km de distância do Disney World!

               A minha vizinha de 10 anos se mudou outro dia e me enviou algumas mensagens de texto se despedindo. Ela e o marido se aposentaram e a casa ficou grande demais só para os dois. Com a valorização, era a chance de vender, quitar o financiamento e com o resto comprar uma casa à vista mais distante. As últimas palavras dela foram: "Ah, como eu vou sentir falta de Audubon Park..!!" E nós de vocês Nancy e Keith!

          Dizem que uma imagem vale por 1000 palavras. Vai aqui então um vídeo que em 5 minutos resume tudo o que eu escrevi ;-). Após o vídeo alguns links interessantes. 

             


Outros pontos interessantes em Audubon Park


- P is for Pie  - loja de tortas americanas

- La Feme Du Fromage - loja de queijos



Esta casa está à venda na minha rua. Entre em contato comigo, compre e venha ser meu vizinho! ;-)
Precisa de uma reforma assim como fiz na minha. Mas pode ficar um espetáculo...

























domingo, 28 de outubro de 2018

Ser Imigrante



- Ser imigrante é diferente de ser refugiado. Imigrar é algo que a gente escolhe, refugiado é algo que acontece com você.

- Porém ser imigrante é também ser refugiado. É desbravar uma terra perto ou distante em busca de uma vida melhor ou de outras experiências. 

- Ser imigrante é sentir saudades. Mas a saudade não é da terra e sim de um tempo que não volta mais. Pois a terra que existe lá hoje não é a terra que se sente saudades. Essa terra só existe agora na memória. 

- Ser imigrante é sentir falta dos amigos e da família. É sentir vontade de comer a comida da avó na companhia da família, dos tios, dos primos, do pai, da mãe. 

- Ser imigrante é não entender as piadas dos nativos. É morrer de rir das nossas piadas que não faz sentido para os aqui em volta.
- Ser imigrante é tentar traduzir uma piada sem sucesso algum. 

- Ser imigrante é ter um paladar diferente. É cozinhar com os ingredientes deles, a nossa comida. 

- Ser imigrante é aprender todo o dia com eles coisas novas e ensinar a eles como fazíamos na nossa terra. 

- Ser imigrante é ter sotaque. Sotaque falando a língua deles e a sua também. 

- Ser imigrante é pensar em línguas diferentes e esquecer as palavras. É ficar frustradro quando não consegue dizer o que quer nem na sua língua nem na língua deles. 

- Ser imigrante é pertencer e não pertencer ao mesmo tempo. É morar na casa dos outros. É sentir acolhimento e discriminação. 

- Ser imigrante é se preocupar com o futuro da sua terra, mesmo que você não pense em voltar. 

- Ser imigrante é pensar em voltar de vez em quando. 

- Ser imgrante é sentir orgulho das coisas que conquistou e que não conseguiu conquistar na sua terra. 

- Ser imigrante é sentir culpa de ter deixado outros para trás. 

- Ser imigrante é querer trazer todos pra perto de você. 

- Ser imigrante é trabalhar duro, mais que em sua própria terra. 

- Ser imgrante é olhar fotografias, muitas vezes.

- Ser imigrante é ouvir música que toca seu coração, mas não é a música daqui.

- Ser imigrante é assistir programas da sua terra na TV à cabo. 

- Ser imigrante é não saber o que o futuro reserva.  

- Ser imigrante é encontrar outros como você aqui e sentir-se imediatamente conectado com eles. 

- Ser imigrante é comemorar um feriado que não faz parte da sua história.

- Ser imigrante é ter medo de falar ao telefone.

- Ser imigrante é passar frio ou muito calor.

- Ser imigrante é muitas vezes dormir com alguém que não fala a sua língua. É sonhar na sua língua e na língua deles. 

- Ser imigrante é querer que seus filhos, que não têm a sua nacionalidade, tenha a infância que você teve porém na terra deles. 

- Ser imigrante é ter um conflito de emoções. Saudades, aversão, amor e ódio, confiança e insegurança e uma certeza de quase nada. 

- Ser imigrante é para poucos. Embora quase nossa totalidade vem de famílias de imigrantes. 

- Ser imigrante é sentir um vazio quando a família e os amigos, em visita, têm que partir. 

- Ser imigrante é tentar esquecer e tocar a vida na nova terra. 

- Ser imigrante é querer ter a vida que você tem agora, na terra natal, no tempo em que se era feliz por lá. 

- Ser imigrante é adotar a nova terra como lar mesmo sabendo que será sempre um imigrante. 

- Na nova terra, pode-se deixar de ser pobre, de ser rico, de sofrer, de ter medo e uma porção de outras coisas. Mas nunca se deixa de ser imigrante...



segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Eu Fui Redirecionado



          Ontem eu assiti a um video que resume bem um episódeo da minha vida aqui nos EUA. O vídeo compara uma demissão ou rejeição a um redirecionamento. Eu vou disponibilizar o vídeo no final do post. Infelizmente não há legendas em português. Mas vamos ao episódeo que aconteceu no ano em que eu terminei a faculdade aqui nos EUA. É bem interessante...

             O meu objetivo quando eu cheguei nos EUA para estudar era bem claro. Fazer o que for preciso para terminar a faculdade e arrumar um emprego em uma empresa americana de Design ou Arquitetura. Em tudo o que eu fazia, eu sempre pensava nisso. Isso era como o "prêmio final", o alvo, a realização do American Dream após tanto esforço, trabalho, dedicação e privações. Em Julho de 2013 eu terminei a faculdade de 4 anos e rapidamente produzi meu portfólio que levou 6 meses para terminar. Você pode até ver neste link aqui. Eu inclusive paguei 500 dólares para ter o portfólio com capa acrílica escrito meu nome em relevo. Os professores da faculdade disseram que era um dos  melhores portfólios produzidos na história da faculdade. Eu estava muito confiante que a segunda parte do meu American Dream iria sair de acordo com o planejado. Mal sabia eu... 




Quatro das 45 páginas do meu Portfólio. Cinco, dentre 30 projetos residenciais e comerciais feitos
durante o período da faculdade

            No final da faculdade uma de minhas professoras me disse que eu deveria ir trabalhar para Marc-Michaels em Orlando. Eu nunca tinha ouvido falar deles então fui pesquisar na internet. Acabei descobrindo que o nome Marc- Michaels era a combinação de duas pessoas, dois designers e que a empresa é considerada a melhor empresa de Design de Orlando e uma das mais respeitadas no mundo inteiro. Eu não sei quantas vezes eu olhei o website deles, o portfólio, os projetos e trabalhar nesta empresa começou a ser parte do plano e até posso dizer um pouco de obsessão da minha parte. Seria o fim perfeito.
Vou ser honesto, eu fiquei verde de inveja quando um de meus colegas de classe me disse que estava fazendo estágio na Marc-Michaels. 

            Meu Deus! Esse colega era um dos mais preguiçosos da turma. Em 4 anos, entregou 2 projetos sem atraso de péssima qualidade. Foi reprovado em 70% das matérias na primeira vez embora fosse muito inteligente. Teve até que conseguir um empréstimo particular para terminar a faculdade pois o governo se negou a dar-lhe mais dinheiro em forma de crédito estudantil. Quando em grupos de trabalho com a gente, não fazia nada. E ele estava lá dentro da Marc-Michaels. E eu, o aluno mais dedicado, que preenchi o formulário para estágio na empresa online pelo menos 3 vezes nunca tinha recebido ao menos uma resposta. 

Projetos incríveis feitos pela Marc Michaels

        Com o diploma em mãos, portfólio e muita determinação eu decidi ir até a Marc-Michaels deixar meu portfólio na front desk com quem quer que seja. Assim mesmo, sem ser convidado. Quem sabe alguém iria ver o portfólio e me chamar? 

          O rapaz da recepção ficou espantado quando eu disse que estava alí sem horário marcado com ninguém. Aqui nos EUA isso é equivalente a ir à casa de alguém sem ser convidado. Expliquei a ele o motivo da minha visita e deixei o meu portfólio com ele. Ele me disse que entregaria nas mãos de alguém que tivesse algum poder de decisão dentro da empresa. 

          Não demorou 5 dias e eu recebi pelo linkedin uma mensagem do PRESIDENTE da Marc-Michaels, Marc não sei do quê, me dizendo que ficou muito impressionado com meu portfolio e que gostaria de marcar uma entrevista comigo. Nesse dia eu e minha família americana fomos ao restaurante para comemorar, gastar dinheiro que não tínhamos pois eu, com certeza, iria trabalhar na Marc-Michaels. Podia haver final mais perfeito para meu American Dream? Depois de tudo que eu passei para fazer e terminar a faculdade? Das privações?

               No tal dia e tal hora marcados, lá estava eu. Eu já tinha passado e repassado a entrevista na minha mente diversas vezes. Até pesquisei a fundo o que dizer e o que não dizer e até as melhores respostas para perguntas sempre usadas por entrevistadores. O próprio presidente me recebeu em sua sala e conversamos por 15 minutos. Ele gostou de mim. ELE GOSTOU DE MIM! E me disse que eu iria passar por uma segunda entrevista com a diretora da empresa. "Claro, sem problema algum" disse eu. E assim foi na segunda entrevista com uma mulher que era a diretora. O genro dela é brasileiro então estabelecemos uma conexão imediatamente. Ela até me levou para um tour pelo escritório! Eu fiquei de queixo caído. O escritório é enorme. A única coisa que notei mas que não dei bola, foi que eu achei as pessoas do escritório com uma cara meio amarrada. 

Escritório da Marc-Michaels em Winter Park
Somente 10 minutos de distância da minha casa

              Nos despedimos e ela disse que eu ia ter uma última entrevista com a gerente do departamento que eu iria trabalhar. E no tal dia e tal hora, lá estava eu para conversar com essa moça de aproximadamente 35 anos, simpática e sorridente. Sentamos na sala de reuniões e ela pegou meu portfólio para olhar. Batemos um pouco de papo, e ela foi olhando o portfólio. Muito simpática e muito sorridente. E ela foi virando as páginas do portfólio. Na metade do portfólio ela parecia mais concentrada. Ela me perguntou "Were you an A student?" (Você foi um estudante que só tirou A?) Ao que eu disse que sim. Ela voltou a examinar o portfólio e só disse "uhum". 

           Nessa hora havia um completo silêncio na sala. Ela ficou de repente, séria. E ia virando as páginas. Eu senti uma energia negativa e tentei conversar um pouco e até fazer algumas piadas, mas nada funcionou. Ao terminar de olhar o portfólio, a atitude dela era completamente diferente de quando começou. Ela estava séria, não sorria mais, pouco falava e veio com a maldita frase "Ok, vamos examinar mais alguns portfólios e qualquer coisa ligamos para você".

             Eu já sabia. Eles não iam me chamar. A moça gostou de mim mas depois de olhar meu portfólio ela percebeu que eu representaria "um problema" para ela, uma ameaça. Isso é o que eu acho, mas eu sou muito bom em ler as pessoas e 7 anos de terapia me ensinaram muito à respeito da natureza humana. Talvez na cabeça dela ela estaria contratando sua própria substituição. Mas talvez eu estivesse errado. Talvez eles iriam ligar no final das contas. Preferi pensar positivo embora no fundo, eu já sabia que não seria mais contatado. 

          Uma semana depois eu enviei um email e nada. Eu liguei e nada. Pediram para aguardar. Ninguém falava nada, ninguém dava nenhuma satisfação. Duas semanas depois enviei outro email ao que a gerente me respondeu que eles contrataram uma moça recém saída da faculdade Seminole Estate College. Verdade?? Fiquei pensando nas razões de se contratar uma pessoa de 20 e poucos anos recém saída da faculdade em comparação a mim. Só uma razão me vinha à mente. Alguém mais novo, sem experiência não representa ameaça alguma, não questiona, etc. E foi isso mesmo que aconteceu, eu não fui contratado pela Marc-Michaels.

            Eu fiquei arrasado. Por uma semana a única coisa que eu consegui sentir era pena de mim mesmo. Desempregado, sem dinheiro, sem perspectivas, 45 anos de idade, será que eu conseguiria um emprego em uma boa empresa de Arquitetura e Design? Após meu período de luto pela Marc-Michaels eu saí entegando currículos e mini portfólios para todas as boas empresas que eu consegui o contato pela internet e após um mês eu não tive sequer um retorno de nenhuma delas. Pensei muito também no fato de que o salário pagos por estas empresas, 30 mil dólares por ano geralmente, era baixíssimo (25 mil dólares ao ano já é considerado o limite da pobreza nos EUA), e o tempo, geralmente 10 horas fora de casa, longe dos meus cachorros, para receber um cheque de 1600 dólares mensais não valia a pena e decidi então tentar investir em projetos particulares. 

             Quatro meses depois, eu já tocava 2 projetos sozinho de clientes brasileiros e à convite do marido de uma das minhas amigas da faculdade, eu tirei minha licença de corretor de imóveis na Flórida e a minha vida mudou da água para o vinho. 


Esse foi meu primeiro grande projeto. A reforma de uma casa
em Miami

            No primeiro ano de trabalho eu toquei 4 projetos e vendi 20 casas! A torneira de bênçãos e de dinheiro se abriu e eu trabalhei praticamente todos os dias do mês em 2014, sem folgas e ganhei muito dinheiro em comissões e em projetos. Muito mais do que eu jamais imaginei que poderia acontecer comigo. Comprei um Audi SUV maravilhoso que possuo até hoje e até saí em um shopping spree (ataque de compras). Aí vem a melhor parte da história.

               Um cliente brasileiro entrou em contato e queria comprar uma casa em Orlando para férias da família com um orçamento máximo de 1 milhão de dólares. Após visitarmos mais de 30 residências, para minha surpresa, ele comprou uma casa de 2 milhões de dólares e a comissão de 3% me daria o equivalente de 2 anos inteiros de trabalho na Marc- Michaels! Após a compra efetuada, comissão recebida, meu cliente perguntou: "Você vai decorar a casa pra mim?" Infelizmente na época eu estava tão ocupado e a casa era tão grande que tive que dizer não a ele. Então ele me perguntou "Quem é a melhor empresa de deisgn de Orlando?" Ao que eu respondi sem hesitação "Marc-Michaels". Ele me pediu então para marcar uma reunião com eles e fez questão que eu estivesse presente. Pode imaginar?? Eu nem contei a história para ele. 

               Então no tal dia e tal hora marcado na residência, eu iria, com meu cliente, entrevistar a Marc-Michaels! Que ironia do destino... Ao chegar na residência vi uma BMW estacionada na calçada e estacionei meu Audi logo ao lado. Quem estava lá? Ninguém menos que o presidente da Marc-Michaels, o tal Marc não sei do quê junto com a moça que também me entrevistou. Eles ficaram pasmos quando me viram descer do meu carro. Eles me  reconheceram imediatamente e perguntaram: "Você também vai participar da concorrência para pegar esse projeto de design"? Ao que eu disse "Não, eu vendi essa residência para meu cliente. Só estou aqui para acompanhá-lo na entrevista com vocês e ajudar na tradução" Uau!

Imóvel adquirido pelo meu cliente em condomínio de luxo
em Windermere

           Durante a visita pela casa, cada coisa que os dois sugeriam meu cliente pedia a minha opinião. Outras pontos de vista e soluções eu também apresentei. Meu cliente ficou abismado com o valor estimado dos trabalhos que o presidente disse a ele. Em torno de 400 mil dólares para mobiliar a casa! E é assim mesmos com a Marc-Michaels, um projeto com eles custa centenas de milhares. Outros designers também apareceram num total de 3 empresas. No final do dia, meu cliente perguntou com respeito à Marc-Michaels: "E aí Renato o que você achou deles?" ao que eu respondi "Nahhhh não acho que vale à pena"

                 Ele me disse que pensou a mesma coisa. E este é o final da história. Não senti um senso de vingança ou nada disso. Na verdade, aquela moça que não me contratou fez a melhor coisa que podia ter feito comigo. Fechando aquela porta, eu tive que acreditar em mim mesmo e seguir outro caminho. Eu estava sendo redirecionado e não sabia. Por mais que alguém me dissesse isso naquele momento eu não dava ouvidos. Mas não ter entrado naquela empresa foi a melhor coisa que me aconteceu. Hoje eu tenho 3 empresas nos EUA. A Studio R Interior Design Inc, onde eu faço reformas e decoração para clientes brasileiros e americanos. A Uno Realty Group que é a nossa imobiliária em Orlando que eu abri o ano passado e já temos 5 corretore brasileiros, americanos e hispanos. E também a Uno Rehab Group que compra imóveis em péssimo estado e fazemos o flip, revitalizamos o imóvel e colocamos de volta no mercado, geralmente pelo dobro do valor da aquisição.



                  O mundo é redondo e dá voltas, as pessoas dizem. Ouvimos isso sempre. É difícil acreditar e mais difícil ainda é ser rejeitado. Mas pode ser que nesse momento estejamos sendo "redirecionados". Aconteceu comigo, pode acreditar. Precisamos acreditar em nós mesmos e trabalharmos duro para alcançar nossos objetivos. A rejeição é um golpe duro e um tombo dolorido. Talvez seja esse o momento de darmos um novo rumo a nossas vidas. Tenha coragem!

                Anos depois conheci uma designer que trabalhou por muito tempo para a Marc-Michaels. Ela me relatou horrores do ambiente de trabalho. Não é à toa que as pessoas pareceiam tão infelizes no escritório. E um outro dia, fiquei sabendo que o tal do meu colega de classe que não fazia nada e chegou a fazer um estágio na Marc-Michaels estava trabalhando em um supermercado. Embora ele tenha investido o mínimo na própria educação e o máximo em festas e passeios não fiquei contente de saber disso. Mas no final das contas colhemos o que semeamos. Pode demorar, mas tudo o que fazemos volta pra nós mesmos, mais cedo ou mais tarde. 

                 Espero que este meu relato, contato pela primeira vez ao público desperte em quem leia o otimismo de acreditar em si mesmo e de fazer o máximo para o bem próprio e de outros. Lembrando que algo ruim que nos acontece, pode não ser necessariamente ruim. Pode ser o começo de algo muito maior. Grande abraço a todos!




Posso ainda não ter clientes com orçamento de centenas de milhares de dólares
Porém, faço o meu melhor com qualquer orçamento que o cliente me dê.
;-)

               
Contatos:

Renato Alves
Licensed Real Estate Broker
renato@unorealtygroup.com
Tel/Whatsapp: +1-407-808-1878
Instagram: renato_s_alves e também renatoalves_realtor

Uno Realty Group

Studio R Interior Design Inc
studiorinteriordesign@gmail.com

Tel/whatsapp: +1-407-808-1878
           
      
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